Doce e salgado

Doce e salgado

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Eu fiquei olhando aquele encontro de águas como quem escuta uma conversa antiga. De um lado, o rio vinha manso, quase tímido, carregando folhas, lembranças da serra, pequenos segredos que só quem atravessa pedras conhece. Do outro, o mar respirava largo, salgado, imenso, com aquele jeito de quem já viu o mundo inteiro e ainda assim continua esperando.

E ali estavam os dois.

Não houve anúncio, nem aplauso. O rio não pediu licença. O mar não se moveu para impressionar. Apenas se tocaram. A água ficou turva por alguns metros, como se estivesse decidindo que sabor teria dali em diante.

Mas daquela mistura nasce um mangue.

Um lugar que, para quem olha de longe, pode parecer confuso. Raízes expostas, lama, água que não é totalmente doce nem completamente salgada. Só que é ali que a vida pulsa com mais intensidade. Peixes encontram abrigo, aves pousam, o pequeno cresce protegido.

Voltei pensando que a vida é assim.

Na família, quando temperamentos diferentes se encontram, nem sempre o cenário é limpo e organizado. Há ajustes, conversas difíceis, diferenças que ficam à mostra como raízes. Mas, se houver amor, nasce um mangue. Um ambiente onde cada um encontra espaço para crescer, mesmo em meio às diferenças.

No trabalho também. Ideias distintas se cruzam, opiniões se misturam, experiências colidem. Às vezes parece lama. Parece desorganizado. Mas é justamente ali que surgem soluções mais criativas, projetos mais sólidos, relações mais maduras.

Na vida em geral, todo encontro verdadeiro tem um pouco de mangue. Não é perfeito. Não é cristalino. Mas é fértil.

O rio não deixa de ser rio. O mar não abandona o sal. E dessa mistura, que poderia ser conflito, nasce sustento.

Talvez o segredo não esteja em evitar a lama, mas em entender que algumas das paisagens mais ricas da existência nascem exatamente dela.

No fim, percebo que não fomos feitos para permanecer isolados em nossas margens. Fomos feitos para misturar, para aprender, para gerar vida.

E, quando isso acontece, o que parecia apenas encontro se transforma em raiz.

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