Longe do palco

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Já teve dias em que tudo em mim parecia pedir palco.

A pressa. As entregas. As opiniões. As expectativas invisíveis que, mesmo sem serem ditas, pesavam como cobranças reais. Em meio a tudo isso, eu me percebia querendo ser visto, querendo acertar, querendo provar alguma coisa, nem sempre aos outros, mas, muitas vezes, a mim mesmo.

E, sem perceber, meu coração começava a se mover mais para fora do que para dentro.

Foi então que, quase como um sussurro em meio ao barulho, eu senti o convite ao silêncio.

Não havia plateia.
Não havia pressa.
Não havia necessidade de impressionar.

Apenas um lugar simples. Uma pausa. Um encontro.

Em algum momento, aprendi que existe valor em fechar a porta e me afastar do olhar dos outros. Um espaço onde não há necessidade de parecer, apenas de ser. Um lugar onde aquilo que ninguém vê continua sendo essencial.

Nesse espaço escondido, minhas palavras não precisam ser bonitas. Às vezes, nem completas. Há dias em que elas nem chegam a existir, ficam presas na garganta, dissolvidas em silêncio. Ainda assim, alguma coisa dentro de mim encontra escuta.

Ali, não importa o meu desempenho. Importa a minha verdade.

É curioso como, nesse lugar silencioso, tantas coisas dentro de mim se reorganizam. O que antes parecia urgente perde a força. O que parecia pesado encontra alívio. E aquilo que estava desalinhado, aos poucos, volta ao lugar.

Esse ambiente não me aplaude, mas me sustenta.
Não me expõe, mas me transforma.
Não me cobra, mas me reorganiza.

Enquanto o palco pede constância, o silêncio me oferece permanência. Enquanto a exposição exige entrega, esse encontro me devolve sentido.

E, no fim das contas, eu entendo, ainda que às vezes demore, que o que acontece longe dos olhos é o que realmente sustenta aquilo que um dia pode ser visto.

Por isso, quando tudo em mim fica barulhento demais, eu tenho aprendido a fazer o mais difícil: fechar a porta.

Porque é nesse lugar que a minha mente desacelera e a minha essência respira.

E é ali, longe dos holofotes, que eu encontro Deus todos os dias e, de alguma forma, também me reencontro.

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